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Ganhar a prata ou perder o ouro

  • Foto do escritor: Mariana
    Mariana
  • 20 de fev.
  • 4 min de leitura

Estou achando o maior barato acompanhar um pouquinho dos jogos olímpicos de inverno que estão acontecendo na Itália. Não tenho muita familiaridade com os esportes na neve, como a maioria de nós que nascemos nesse país tropical, e talvez isso me faça ainda mais admirada e encantada por eles. Se você tem acompanhado nem que seja de relance, talvez tenha se deparado com a entrevista de uma atleta chinesa que tem viralizado.


Eileen Gu, 22 anos, é uma atleta de esqui estilo livre que já conquistou a marca histórica de 5 medalhas olímpicas nos jogos de inverno, duas de ouro e uma de prata na edição passada, e mais duas de prata essa semana na Itália. Ela nasceu nos Estados Unidos, o pai é americano, mas a mãe é chinesa e ela optou por representar a China. Eis que após o grande feito ela concede uma entrevista a imprensa e recebe essa pérola de um jornalista: ele pergunta à atleta se ela sente o seu feito como a conquista de duas medalhas de prata ou como a perda das medalhas de ouro.


A resposta que essa jovem atleta deu foi sensacional. Vale a pena cada palavra:


“Sou a esquiadora de estilo livre mais condecorada da história. Acho que isso já é uma resposta por si só. Como posso dizer isso? Ganhar uma medalha nos jogos olímpicos é uma experiência que muda a vida de qualquer atleta. Fazer isso cinco vezes é exponencialmente mais difícil. Porque cada medalha é igualmente difícil para mim, mas as expectativas de todo mundo só aumentam, certo? E essa ideia de duas medalhas perdidas, para ser bem franca com você, acho que é uma perspectiva meio ridícula de se ter. Estou mostrando o meu melhor aqui, estou fazendo coisas que literalmente nunca foram feitas antes. Então acho que isso é mais do que suficiente. Mas, obrigada!”


Dispensa grande comentários, não é? A resposta é de muita maturidade, impressionante! E mais do que isso, representa toda a potência do esporte de alto rendimento, do esporte olímpico, afinal.


“Mais alto, mas rápido, mais forte” é o lema dos jogos olímpicos. Um super atleta realizando feitos inalcançáveis para nós, simples mortais, é mesmo fascinante! No instante do seu feito — a medalha, o recorde, a superação — ele incarna aquele ideal de plenitude, de infalibilidade, de limites expandidos e objetivos alcançados que todos nós idealizamos em algum momento da vida, ou melhor, em vários momentos porque afinal é tarefa de uma vida toda ir lidando com as nossas frustrações, os nossos limites, a nossa finitude, com a castração, enfim! Afinal, a plenitude de uma vez por todas alcançada, nos ensina a psicanálise, é impossível. Na competição gozamos junto com os atletas pelos quais torcemos a euforia do “nada mais faltar”. Finalmente, cheguei!


Só que não! Nem para esses que muitas vezes vemos como “super heróis” há essa possibilidade. No instante seguinte, já vem o pensamento sobre o próximo ciclo olímpico. Virá pela frente um esforço hercúleo para se manter no topo, ou para na próxima passar da prata ao ouro, ou mesmo beliscar uma medalha. É do jogo! É da vida!

É porque “quem sabe dá para melhorar mais um pouquinho” que um atleta segue treinando, ainda que esse pouquinho custe muitos sacrifícios. Assim, também é porque sempre há algo que falta, que nos movemos na vida, sujeito de desejo que somos.


Voltemos a pergunta do jornalista.


Há anos atrás escrevi uma dissertação de mestrado que buscava unir duas paixões: psicanálise e esporte. Lá escrevi algo como: “a lógica do esporte de alto rendimento reverbera a lógica do laço social contemporâneo”.


Essa lógica – e me referia aqui a esse “sempre falta, sempre dá para melhorar mais um pouco” – pode ser propulsora do desejo pois que aponta uma falta necessária para que ele se mova. Mas pode também ser aniquiladora. A hipótese de que ganhar a prata é perder o ouro aqui levantada por esse jornalista é um pensamento muitas vezes presente no esporte de alto rendimento. E quando o que falta é sempre maior do que aquilo que já foi, pode haver muito sofrimento em jogo.


A lógica do laço social contemporâneo é o da alta performance, mesmo fora das quadras, pistas, piscinas. É sempre o topo, o desempenho máximo em várias esferas da vida que é posto como ideal: melhor aparência, não dá mais para envelhecer, inclusive! Melhor emprego, melhor relacionamento, melhor produtividade, melhor, melhor, melhor....ufa! Resta-nos o esgotamento.


Eileen Gu diz que o seu desempenho – espetacular, diga-se de passagem – é mais do que suficiente! Não é o metal da medalha que mede o seu valor! Que importante uma atleta poder reconhecer isso e assim manter o que há de potência no esporte de alto desempenho e naquilo que dele podemos tirar de proveito para a vida.


São muitas lições possíveis advindas do esporte competitivo, capazes de enriquecer a experiência de vida daqueles que a experimentam. A depender, claro, de como cada sujeito, em sua singularidade, a vivencia.


Assim é no esporte, assim é na vida!


Quais medalhas de bronze e prata você já ganhou? E as de ouro? No que você não conseguiu nem ir para as finais? Quanto de investimento e sacrifício em cada uma dessas vivências? E o quanto de satisfação e autorrealização? E, ao final, por qual perspectiva você escolhe avaliar-se?

 
 
 

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