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Quando desistir é ato

  • Foto do escritor: Mariana
    Mariana
  • 24 de jul. de 2025
  • 7 min de leitura

“(...) E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.

Desisto, e terei sido a pessoa humana – é só no pior de minha condição que esta é assumida como o meu destino. Existir exige de mim o grande sacrifício de não ter força, desisto, e eis que na mão fraca o mundo cabe. Desisto, e para a minha pobreza humana abre-se a única alegria que me é dado ter, a alegria humana. Sei disso, e estremeço – viver me deixa tão impressionada, viver me tira o sono.”

Clarice Linspector – A paixão segundo GH

 

Algumas vezes as pessoas desistem. Mudam rotas. As pessoas que são atletas também. Em nosso Seminário de Psicanálise e Esporte[1] falamos a esse respeito diversas vezes. São muitos os exemplos de atletas de alto rendimento que têm vindo a público falar de sua desistência. O grande nome da ginástica artística mundial, a americana Simone Biles[2], desistiu de competir nas finais olímpicas em Tóquio. O nadador brasileiro, medalhista olímpico, Bruno Fratus[3], desistiu de tentar o índice para a Olimpíada de Paris e na sequência decidiu pela aposentadoria. Mais recentemente, a surfista brasileira, uma das principais atletas do surf mundial, Tatiana Weston-Webb, alegou que iria parar de competir por um tempo. Todos alegaram precisar parar para cuidar da saúde mental.


O que eu trago aqui hoje é uma reflexão sobre a desistência. Ao som de Clarice Linspector - porque para mim a escrita dela é sempre poema, música - quero introduzir uma conversa sobre a desistência. E vou chamar pra essa prosa também Adam Philips e Jacques Lacan.


O psicanalista inglês, Adam Philips, publicou um livro chamado Sobre Desistir. Lá ele nos diz que a desistência, de maneira geral, é vista como falta de coragem e, assim, um ato vergonhoso. A nossa sociedade valoriza muito a ideia de levar as coisas a cabo. Em suas palavras “A desistência precisa ser justificada, o que não acontece com a conclusão; desistir geralmente não nos deixa orgulhosos, significa ficar aquém da pessoa que preferíamos ser;  a menos, é claro, que seja sinal de um realismo definitivo e definidor, do que chamamos de “conhecer nossos próprios limites”. Um pouco mais adiante ele vai dizer que “Há uma tirania da conclusão” capaz de limitar a nossa mente.


O autor compara uma versão daquilo que chama de desejo de desistir com a pulsão de morte assim como nos é apresentada por Freud. Em sua leitura, a pulsão de morte seria a parte de nós que quer menos vida, que quer desistir. Com essa conceitualização, Freud teria encontrado uma maneira de reconhecer e debater sobre o desejo de desistir.  E aqui a desistência considerada como algo destrutivo. De uma forma geral, nos diz Philips, as desistências cotidianas são vistas como algo ruim porque lembram a desistência máxima representada pelo suicídio. Como a ideia de que “vale a pena viver” é tomada como auto evidente, consequentemente, desistir da vida seria algo ruim.


O que o autor defende é que há formas de renúncia mais brandas do que o suicídio, inclusive instrutivas e promissoras. Nesse caso, a ação não seria lida pela ótica da pulsão de morte. As pessoas teriam uma certa inabilidade de desistir de coisas que já não fazem bem ou que deixaram de trazer prazer.  “Não conseguir desistir é ser incapaz de aceitar a perda, a vulnerabilidade; ser incapaz de aceitar a passagem do tempo e as revisões que ele traz”, afirma. Por essa via, entendemos que é preciso ser capaz de orquestrar certas perdas.


Crítico literário, Adam Philips nos traz a tragédia grega e os personagens de Kafka para ajudar a pensar essa questão. Os heróis e as heroínas trágicos são pessoas que não desistem, e mais que isso, são exemplos catastróficos da incapacidade de desistir. Por que se recusam a desistir, eles fazem muitas coisas destrutíveis. Aí reside a trágico desses personagens. Gosto quando ele diz que deveríamos ser mais céticos em relação ao heroísmo tão presente na tragédia e valorizar narrativas que falam da vulnerabilidade, como a comédia.


Falando em heroísmo, logo vem a associação com os grandes atletas. Esses sujeitos têm feitos tão extraordinários para a maioria de nós que assim são tidos popularmente: heróis. Katia Rubio (2001) fez um estudo muito interessante sobre o que chama de mito do atleta-herói. Segundo a autora, nenhum outro mito foi tão cultuado e se mantém por tanto tempo no imaginário como o do herói. O mito do herói não é encontrado apenas na estrutura mitológica grega, ele é o mito mais antigo do mundo e é reconhecido na mitologia clássica da Grécia e de Roma, na Idade Média, no extremo oriente. A vitória sobre si mesmo é a grande propulsora do herói de todos os tempos.


“Se por um lado sua condição de atleta diferenciou-o de uma grande parcela da população, permitindo que goze de privilégios reservados a poucos, por outro essa mesma condição o faz amargar isolamento e distanciamento de situações vividas por semelhantes” , nos diz Rubio (1997, p.97) referindo-se a uma série de renúncias e sacrifícios que bem sabemos que os atletas precisam se submeter.


Justamente por conta dessa identificação ao herói, pode haver uma dificuldade ainda maior em escolher desistir vivenciada pelos atletas de alto rendimento. É claro que para chegar a ser um grande atleta é preciso saber lidar com as frustrações e persistir frente a inúmeras dificuldades e obstáculos. Podemos dizer que quem “desiste fácil” nunca chegará a esse nível de comparação com o herói. Tem momentos em que desistir não é mesmo uma opção. O aprendizado para a perseverança na vida é muito importante, assim como no esporte.


O que eu gostaria de referir aqui, são os atletas que chegam ao topo e que desistem para o espanto dos torcedores. Desistem de um campeonato, desistem de uma temporada ou desistem da carreira mesmo, como nos exemplos que citei na abertura desse texto. Quero ressaltar o aspecto potente dessa desistência que aponta pra a pulsão de vida e não de morte. Aposto, com Philips, que as perdas não são necessariamente algo que nos acontece, mas algo que nós podemos escolher.

 

 Essa potência encontro no trecho citado de Clarice Linspector, em a Paixão segundo GH. Algo novo se revela a personagem GH quando ela desiste de entender e se entrega aquilo que é próprio a experiência humana, o encontro com o vazio, com a castração, com o seu limite. A alegria possível ao humano, é a alegria não toda, advinda da realização não toda, a única que nos é possível, enfim. E trazendo a conversa para o rumo que aqui nos interessa, para as tomadas de decisão baseada naquilo que é demasiadamente humano, as limitações, acrescento: é importante o seu reconhecimento e, mais do que isso, o seu acolhimento.


Da leitura de Clarice vou para o conceito de ato. Ato não é um conceito específico na obra freudiana ainda que já estivesse lá - atos falhos, atos sintomáticos - e se referisse a manifestações do inconsciente. Lacan trabalha ato como um conceito, ato psicanalítico. Ato não tem a ver só com ação, mas com algo que transforma a estrutura do sujeito, é aquilo capaz de produzir um antes e um depois já que inaugura algo novo na posição subjetiva. O ato analítico é aquele que provoca uma mudança na posição subjetiva do analisante, uma intervenção precisa que possibilita uma travessia. “O ato psicanalítico designa uma forma, um envelope, uma estrutura tal que, de algum modo, ele suspende tudo o que até então tenha sido instituído, formulado, produzido como estatuto do ato, à sua própria lei” (Lacan, 1967/68, p. 63).


Qual o ponto que quero chegar aqui? Se desistir tem a ver com o encontro com a castração, encontro esse nunca definitivo, trabalho de uma vida inteira, que aqui e ali vamos atualizando, poderíamos, então, entender a desistência como ato?


Só há ato analítico no interior de uma análise, mas há atos. Temos um ato quando um significante faz corte produzindo uma inscrição que acarreta em uma perda de gozo. Um ato tem a ver com a subversão de um sentido. Entendemos um ato falho, justamente pelo fato de que ele se apresenta como significante. Como coloca Lacan (1967/68, p.77) “...não há ação alguma que não se apresente, de saída, e antes de tudo, com uma ponta significante, que é o que caracteriza o ato, sua ponta significante, e que sua eficiência de ato nada tem em comum com a eficácia de um fazer”.


Assim, se ato tem a ver com corte que abre caminhos para novos significantes, aposto que desistir pode ter valor de ato e dessa forma ser um passo importante no reposicionamento do desejo em direção a uma vivência mais potente. Até na guerra, paradigma da luta tão cara ao herói, a melhor estratégia pode ser a retirada.

 


Referências

PHILLIPS, Adam. Sobre desistir. São Paulo: Ubu Editora, 2024.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

LACAN, Jacques. O ato psicanalítico (1967-1968. Paris: Associação Lacaniana Internacional, 2001.

LINSPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH. Ed. Rocco, 2020

RUBIO, Katia. O imaginário esportivo contemporâneo: o atleta e o mito do herói. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.


[1] Em 2025, iniciamos um Seminário de Psicanálise e Esporte que acontece mensalmente de forma online, com a coordenação das psicólogas e psicanalistas Clarice Medeiros, Paula Figueira e eu.

[2] Remeto o leitor interessado a assistir o documentário da Netflix aonde esse período da vida da atleta é retratado: “Simone Biles: Ascensão”

[3] Em depoimento para o site The Players Tribune, o atleta fala a esse respeito: https://www.theplayerstribune.com/br/posts/bruno-fratus-carta-olimpiadas-natacao

 
 
 

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