Quando o psicanalista escuta o atleta
- Mariana

- 19 de set. de 2024
- 10 min de leitura
Atualizado: 17 de out. de 2024
Há alguns dias atrás aconteceram os Jogos Olímpicos de Paris, evento que eu, assim como acredito que alguns de vocês, sempre acompanho com muito entusiasmo. Pois fui capturada por uma cena pós-competição, mais precisamente a entrevista de um atleta e é disso que parte a reflexão que trago hoje sobre o encontro da psicanálise com o esporte de alto rendimento.
Antes, porém, gostaria de brevemente situar a relação esporte/psicanálise até pouco tempo atrás tida como inusitada. Sabemos o quanto a psicanálise sempre esteve em relação com outros saberes, desde seu surgimento. No entanto, ainda que o esporte seja uma das principais manifestações culturais da humanidade, pouco se fala sobre ele a partir da psicanálise e, menos ainda, sobre a escuta de atletas de alto rendimento a partir da psicanálise.
Cabe destacar que o tema “saúde mental de atletas profissionais ” tem vindo à tona na mídia recentemente. Cada vez mais temos acesso a entrevistas, biografias, filmes, séries, onde grandes atletas falam sobre o preço a pagar por estarem inseridos no discurso do esporte de alto rendimento. Nos contam histórias de depressão, ansiedade, esgotamento, enfim, uma série de conflitos e sofrimentos relacionados a forma como vivenciaram sua carreira esportiva.
E não foi diferente nessas Olimpíadas, o tema esteve em alta. Para citar apenas dois exemplos recentes, assistimos a maior atleta de todos os tempos na ginástica artística, Simone Biles, atribuindo a psicoterapia o fato de estar de volta a competir em ótima forma depois das dificuldades que enfrentou nas olimpíadas de Tóquio, quando surpreendeu os amantes do esporte ao desistir de competir em várias finais alegando estar assim preservando-se física e emocionalmente. E maior medalhista olímpica brasileira, a ginasta Rebecca Andrade, exaltando o lugar que tem na sua vida e nas suas conquistas o trabalho de psicoterapia que faz há muitos anos.
Quando defendi minha dissertação de mestrado, já há 15 anos atrás (DIAS, 2009), estava praticamente inaugurando o campo psicanálise e esporte, acompanhada de poucos. Hoje em dia, apesar de sermos vários escrevendo, atuando e falando a respeito, me parece que, curiosamente, ainda pouco o fazemos entre nossos colegas psicanalistas e sim no meio da psicologia ou das ciências esportivas como um todo.
Feita essa pequena introdução, convido vocês a refletirem comigo a partir de dois analisadores advindos da tal da cena olímpica a qual me referi acima. A cena: uma entrevista do nadador Guilherme Costa, concedida a mídia logo após a sua participação em uma final olímpica em Paris. Além do repórter, o nadador Bruno Fratus que dessa vez estava como comentador esportivo, também falou com Guilherme. Isso me levou a um depoimento de Bruno publicado há alguns dias atrás.
Sabemos bem que qualquer tipo de interpretação do depoimento desses atletas só poderia ser feita de forma selvagem. Não é isso que faremos aqui. Escolhi esses exemplos porque os atletas falaram de forma pública e o que destaco dessas falas é um recorte muito semelhante aos que escutamos das peculiaridades das vidas dos atletas de alto rendimento que nos confiam a sua escuta.
O nadador brasileiro Guilherme Costa, é entrevistado logo após sair da disputa da final olímpica dos 400m livre. A 'final', pra quem não é familiarizado com o meio, é o momento em que os 8 melhores nadadores após a prova de classificação, nadam novamente, agora para a disputa da medalha. Nosso atleta se classificou com o segundo melhor tempo e dessa forma confirmou-se como uma grande esperança de medalha. Há 44 anos o Brasil não classificava um atleta para essa final olímpica.
Eis que ele fez o melhor tempo da sua vida e ainda bateu o recorde sul americano da prova. A classificação final? Quinto lugar. Vinte e seis centésimos de segundo o separaram da medalha de bronze, um segundo e dez centésimos da medalha de ouro. Uma prova linda, disputadíssima, mas que ainda assim só guarda três lugares no pódium.
O repórter inicia exaltando os feitos do atleta com essas palavras: “O melhor desempenho da vida numa final olímpica! Não dá para pedir mais que isso para um atleta. Como é que você está se sentindo Guilherme?” Ah, dá para pedir mais sim! Sempre dá! O nadador responde muito emocionado e triste: “Eu não sei o que aconteceu ainda... Queria muito a medalha, queria muito ganhar. Eu tentei de tudo. Eu fiz o que eu podia no terceiro 100m que foi o que eu errei de manhã e eu não sei o que aconteceu. Os últimos 50m que é sempre meu ponto forte, é sempre aonde eu consigo conquistar todos os meus resultados e hoje eu não consegui. Eu tentei de tudo mas não foi possível”.
O repórter então chama Bruno Fratus. Ele também está emocionado e chama a atenção do atleta para o grande feito mais uma vez: “Cara, você fez A prova! (...) Faltam quatro anos para LA - referindo-se as próximas olimpíadas que serão em Los Angeles - , eu não tenho dúvida de que você queria uma medalha, mas enxerga isso para o lado positivo, leva isso que você está sentindo agora, volta pra piscina e treina!”
“Mais alto, mas rápido, mais forte” é o lema dos jogos olímpicos desde a sua primeira edição na Grécia antiga. Um super atleta realizando feitos inalcançáveis para nós, simples mortais, é mesmo fascinante! No instante do seu feito — a medalha, o recorde, a superação — ele incarna aquele ideal de plenitude, de infalibilidade, de limites expandidos e objetivos alcançados que todos nós idealizamos em algum momento da vida, ou melhor, em vários momentos. Afinal, é tarefa de uma vida toda ir lidando com as nossas frustrações, os nossos limites, a nossa finitude... com a castração, enfim! A plenitude de uma vez por todas alcançada, nos ensina a psicanálise, é impossível. Na competição gozamos junto com os atletas pelos quais torcemos a euforia do “nada mais faltar”.
Sobre as suas conquistas históricas, como o recorde sul americano, Guilherme naquele momento, não consegue nem comemorar. Isso não é incomum nesse meio, onde se fala inclusive de um “luto” pós derrota, tempo de elaboração. Ele fala mais uma vez da tática da prova, “eu acertei a prova quase inteira” e termina falando que nunca mais quer sentir isso que está sentindo. Sublinho o quase. E o nunca mais.
Vemos nesse depoimento o quanto a lógica do esporte de alto rendimento acaba reverberando a lógica do laço social na contemporaneidade, proposição essa que desenvolvi há anos atrás (DIAS, 2009). Essa busca pelo desempenho máximo dos atletas para a constante melhora da performance, vai ao encontro do que está posto no laço social contemporâneo como ideal para o sujeitos atletas ou não, como ultrapassar limites e superar-se. Testemunhamos o quanto “render” o máximo possível em diferentes aspectos da vida tem trazido um intenso sofrimento psíquico, na medida em que desconsidera nossas impossibilidades e limitações fruto de nossa falta estruturante como sujeitos de linguagem.
Nem para esses que muitas vezes vemos como “super heróis” há essa possibilidade. No instante seguinte, já vem o pensamento sobre o próximo ciclo olímpico. Virá pela frente um esforço hercúleo para se manter no topo, ou para na próxima passar da prata ao ouro, ou mesmo beliscar uma medalha. “É do jogo”, diz o jargão esportivo. “É da vida”, complementamos!
Vamos a entrevista de Bruno Fratus, disponibilizada na plataforma The Players Tribune. Aliás, a descrição de tal plataforma não passa desapercebida para quem como nós trabalha com a cura pela palavra. Ela foi desenvolvida para conectar os atletas com seus fãs “unindo a voz do atleta ao poder da narrativa confiável e autêntica”. Estamos no campo do testemunho. Aqui os atletas heróis podem enfim falar da sua fragilidade e, que sá, fazer alguma coisa outra com as vivências muitas vezes traumáticas que podem advir quando uma dor não é escutada.
Bruno já disputou as olimpíadas três vezes, sendo que na última foi medalhista. O título da entrevista é “Uma pausa para respirar” e nela ele fala da sua relação com a natação como um nadador profissional, por que desistiu das seletivas para Paris e ainda o que espera do seu futuro de atleta. É sensacional, vou trazer só alguns recortes.
Ele começa num ponto nevrálgico:
“Por muito tempo eu fui um bicho. Todo atleta de alto rendimento é um bicho — e isso guarda uma imensa contradição. Porque a gente começa no esporte por amor. (...) Mas de repente, sem se dar conta, você se torna um competidor. E a partir desse ponto não importa mais se ama ou detesta o que faz. (...) Tampouco se aquilo te deixa triste ou feliz. Se quebra ou fortalece o seu corpo, sua mente e a sua alma. Você é um competidor, um atleta de alto rendimento com uma missão, que, no meu caso, é nadar. (...) Eu não preciso gostar. Preciso ir lá e fazer. Prazer? Dane-se o prazer. Bem-estar? Dane-se o bem-estar. É a glória que conta. E aí, quando o prazer e o bem-estar são trocados pela glória é que tudo começa a ficar perigoso.”
A fala é forte. Bichos tem instintos. Esses tem uma meta e um objeto definidos. Aprendemos com Freud que funcionamos de maneira um pouco mais complexa! A pulsão que nos constitui como sujeitos desejantes, diferente do instinto, não tem uma finalidade única a satisfeita de uma vez por todas. Aonde fica o sujeito no atleta tomado como bicho?
Bruno segue dizendo o quanto os atletas escutam nesse meio que precisam ser resilientes e alerta:
“Acho que todos faríamos bem de desconfiar dessa palavra em vez de repeti-la como um mantra. Resiliência é uma característica das molas, que, sob força, carga e pressão descomunais se deformam, mas sempre voltam ao ponto de partida. Voltam a ser o que eram, incólumes, impassíveis e indiferentes ao que sofreram. Deus me livre de ser uma mola. As experiências da vida me marcam, me entortam, me fortalecem e por vezes me estraçalham. Como eu posso querer emergir desse redemoinho do mesmo jeito que entrei, como um super-herói imune às forças descomunais?”
Bruno que ficou com medalha de bronze nos 50m livre nas olimpíadas de Tóquio, diz que abriu mão de participar da seletiva para os Jogos Olímpicos de Paris porque estava exausto de sentir dor. Disse que nem lembrava como era passar um mês inteiro sem sentir dor. Clarice Medeiros (2016) chama atenção para algo que ocorre no meio esportivo. Os sujeitos atletas identificados com essa imagem do herói não se permitem expressar o sofrimento. Afinal, o atleta está “inserido em um contexto onde a lesão e a dor são naturalizadas e permitidas: é o preço que se paga se quiser ser campeão’. (MEDEIROS, 2016, p358). É claro que ao desafiar os limites do corpo, o atleta está mais sujeito a lesionar-se. Como coloca a autora, é preciso problematizar a dor oriunda da lesão, já que além de um sinal fisiológico é uma afecção que tem consequências psíquicas.
Como apontamos em trabalho anterior, através da escuta do grande sofrimento do esportista de alto rendimento seriamente lesionado, podemos perceber que muitas vezes aquilo que é da ordem da impossibilidade como meta a ser atingida, dado os limites do real do corpo, é imaginariamente experenciado como impotência, o que não é sem consequências para o sujeito, que muitas vezes acaba encarando essas situações-limites como uma grande ferida narcísica (DIAS e SOUZA, 2012).
Continuo com Bruno. “Prefiro ser forte. E ser forte, às vezes, significa dar um tempo, abrir mão, reconhecer o momento e ser coerente com você mesmo. (...)O sofrimento físico — e o emocional decorrente da obrigação de ser resiliente — ficou insuportável. (...) Ao não querer bancar o Super-Homem-Mola-Resiliente-Da-Porra-Toda, eu estava sendo honesto e coerente comigo mesmo, com a minha história.”Ele ainda quer ir para as próximas olimpíadas. Como espera estar até lá? “Espero que mais consciente, mais coerente, mais humano e menos bicho, menos dolorido e menos resiliente aos absurdos do mundo. Mas vou indo devagar.”
Temos aqui um “atleta furado”, como bem colocou minha colega Paula Figueira psicanalista e psicóloga do esporte em um seminário sobre o tema. Acontece que Bruno nos deixa saber o tanto de sofrimento que precisou passar para ter esses insights sobre sua relação com a natação. Afinal, como diz Fábio Menezes Anjos “O inconsciente não é levado em consideração no meio esportivo, à exceção de alguns eventuais casos em que a mídia faz um uso do conceito para explicar uma derrota ou mal rendimento de determinado atleta ou equipe" (ANJOS, 2019, p.112).
São muitas lições possíveis advindas do esporte competitivo, capazes de enriquecer a experiência de vida daqueles que a experimentam. A depender, claro, de como cada sujeito, em sua singulardade, a vivencia. O mal-estar nos é inevitável e inerente como já nos ensinava Freud. Vimos com esses depoimentos o quanto a lógica do esporte de alto rendimento engendra um mal-estar peculiar na medida em que muitas vezes coloca qualquer limite como superável (DIAS, 2009; ANJOS,2019). A análise pode ser um meio de o atleta fazer suas escolhas e buscar as suas saídas para estar no meio escolhido advertido e com recursos para lidar com os efeitos dessa discursividade.
Sustentamos, então, a aposta no encontro do esporte com a psicanálise, preconizando uma clínica com atletas de alto desempenho a partir do referencial psicanalítico. Um espaço de escuta que vá para além das demandas de treinamento psicológico, coisa a que a psicologia se presta muito bem, mas que apesar de necessário não é suficiente quando se pensa numa relação mais interessante do atleta com sua carreira.
Um parêntese para quem não está familiarizado com a psicologia e com essa área específica “psicologia do esporte”. No atendimento a atletas e equipes esportivas, até muito pouco tempo atrás, quase só se falava em intervenções a partir da abordagem cognitiva-comportamental, ainda hoje isso é predominante. Outro detalhe é que por muitos anos a intervenção que cabia ao psicólogo eram aquelas destinadas ao “treinamento das habilidades psicológicas” necessárias a uma melhora da performance como atenção, concentração, controle dos níveis de ansiedade, motivação, auto-confiança. Na última década, já temos estudos, relatos e discussões que solidificam a importância de uma intervenção com atletas que vá além do “treinamento dessas habilidades”. Hoje, profissionais psi trabalham com o que tem se chamado "psicologia clínica do esporte", tendo em vista uma preparação psicológica que leve em conta o atleta como um todo e não só as variáveis que isoladas levariam a um melhor rendimento. O que nos parece óbvio outrora não foi.
Quando o psicanalista encontra o atleta, escuta o sujeito com todas suas inibições, sintomas e angústias, para que assim a busca da performance não se dê a qualquer custo, mas a um custo calculado a partir o seu desejo.
19 de setembro de 2024.
Mariana Hollweg Dias
Referências:
ANJOS, Fábio Menezes. Psicanálise e esporte: o mal- estar na carreira de atletas profissionais. Disseratção (mestrado pós-graduação em psicologia clínica). Instituto de Psicologia. Universidade de São Paulo, 2019. 125f
Dias, Mariana Hollweg. (2009). Sobre o esporte de alto rendimento: reflexões a partirda psicanálise e da utopia. (Dissertação de Mestrado), Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul.
Dias, M. H. & Sousa, E. L. A. (2012). Esporte de alto rendimento: reflexões psicanalíticas e utópicas.Psicologia & Sociedade, 24(3), 729-738
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Obras completas de Sigmund Freud: edição standart brasileira, vol.21. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
Entrevista.“Guilherme Costa se emociona após 5 lugar: queria a medalha”. Disponível em: https://youtu.be/0SHU1jJlUyY? Acessado em 27 de agosto de 2024.
FRATRUS, Bruno. Um tempo para respirar. Entrevista concedida para o The Players Tribune. Disponível em: https://www.theplayerstribune.com/br/posts/bruno-fratus-carta-olimpiadas-natacao Acessado em 27 de agosto de 2024.
MEDEIROS, Clarice. Lesão e dor no atleta de alto rendimento: o desafio do trabalho da psicologia do esporte. In: Psic. Rev. São Paulo, volume 25, n.2, 355-370, 2016
obs: Esse trabalho foi apresentado no XI Congresso Internacional de Picopatologia Fundamental XVII Congresso Brasileiro de Psicopatologia Fundamental que ocorreu de 5 a 8 de setembro em Recife/PE.


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